Análise financeira de uma acção

13-10-2012 22:45

 

     O investimento em bolsa implica que tenhamos algum conhecimento sobre a empresa na qual vamos investir. Esse conhecimento implica, também, que nos debrucemos sobre as informações financeiras que são publicadas periodicamente. Essa informação, por consequência, é tratada e sistematizada em rácios que nos dão indicações sobre o real valor da empresa. A isto chama-se análise fundamental de acções e esses indicadores ou rácios são muitos e variados, no entanto, vou, apenas, debruçar-me sobre alguns que são os mais usados pelos investidores. Não obstante, devemos, sempre, olhar para estes indicadores como sendo uma luz guia e não como uma verdade absoluta e infalível. Isto porque a decisão de investir ou não vai depender, sobretudo, sobre o momento de entrada na acção, ou seja, a compra, e da estratégia que é definida por si.

 

PER – Price to earnings ratio

 

     O PER ou o PERc (c, corrigido) é um indicador que nos dá o número de anos que levaria para recuperar o seu investimento sob a forma de dividendos. O seu cálculo é feito da seguinte forma:

 

     PER = cotação actual / resultado líquido por acção.

 

     O resultado líquido por acção não é mais do que a divisão dos Resultados Líquidos (RL) ou o lucro líquido ou ainda aquilo que fica, contabilisticamente, depois de descontar às receitas, as despesas desembolsáveis (custos com pessoal, matérias primas ou produtos acabados, etc.) e não desembolsáveis (amortizações e provisões ou a sua variação) pelo nº de acções dessa empresa.

 

     No que respeita ao PER corrigido, ao RL retira-se os resultados extraordinários, isto é, proveitos extraordinários menos custos extraordinários. A análise feita nesta base, em minha opinião é mais coerente, uma vez que o que é extraordinário não resulta da actividade normal da empresa e portanto, pouco ou nada nos diz sobre a capacidade da empresa em gerar resultados no futuro.

 

     PER < 0 – diz-nos que esta empresa tem prejuízo, a menos que se verifique uma inversão nos seus resultados. Estas empresas são aquelas que maiores lucros dão quando fizerem a inversão nos seus resultados, no entanto é preferível que invista em empresas com um PER maior.

 

     Não é de estranhar que haja empresas com PER de 50 ou 60 se as perspectivas de crescimento forem muito optimistas, ou seja, se o lucro actual for baixo em comparação com as perspectivas de lucro no futuro. O normal é que esteja entre 15 e 20. Abaixo destes valores, poderá significar que a empresa está estagnada. Ainda assim, é fundamental avaliar as perspectivas de crescimento e geração de resultados de cada uma das empresas. Pode, também, significar que estamos perante uma situação ideal, e, neste caso, estando reunidas as condições de elevadas perspectivas de obtenção de resultados positivos com um PER baixo, o momento para investir nestas empresas é esse. Ou então, uma correcção momentânea do mercado.

Por outro lado, este indicador diz-nos pouco sobre o valor de uma acção. Ele só ganha relevância quando comparado com os PER de outras empresas do mesmo sector. Para além disso, ele é susceptível de manipulação contabilística, ou seja está dependente da qualidade das demonstrações financeiras.

 

PCF – Price to cash-flow

 

     Este rácio mede a saúde financeira de uma empresa. Com esta medida, retira-se os custos não desembolsáveis, nomeadamente, as amortizações e provisões ou a sua variação. O seu cálculo é feito da seguinte forma:

 

     PCF = Cotação da acção / cash-flow por acção

 

     Cash-flow = RL + Amortizações (AR) +/- variação das provisões

 

     Este indicador diz-nos o tempo que o cash-flow demora a cobrir a cotação. Por exemplo um PCF = 5, diz-nos que o cash-flow precisa de cinco anos para cobrir o valor da empresa.

     Uma empresa pode ter lucros muito baixos mas ter uma capacidade de gerar enormes cash-flows. Este indicador, neste caso, é mais relevante do que o PER, uma vez que este é calculado com base em RL muito baixos.

 

PCER – Price to cash earnings ratio

 

     Este indicador ainda é mais relevante uma vez que tem em consideração tudo o que foi referido no indicador anterior e ainda tem em consideração o facto de se retirar o efeito extraordinário dos resultados, que, como já vimos, não faz parte da  actividade normal da empresa.

 

PBV – Price to Book Value Ratio

 

     Também designado por Market to Book Value Ratio. Dá-nos a relação entre a cotação de um título e o seu valor contabilístico por acção, ou a Situação Líquida por acção. Este indicador leva-nos para uma análise de risco duma empresa. Ou seja, diz-nos o quanto a sua cotação pode estar acima do seu valor contabilístico. Empresas com elevada Rendibilidade dos Capitais Próprios (RCP) têm por norma elevados PBV.

     Uma empresa com PBV = 1, diz-nos que o seu valor é igual ao seu valor patrimonial.

     Abaixo deste valor, isto é, PBV < 1, diz-nos que a empresa está avaliada abaixo do valor do seu património. É possível? É. Se a empresa estiver a ter ou a perspectivarem-se prejuízos para os próximos anos. Se ocorrerem durante alguns anos seguidos, a empresa pode entrar em falência. Por outro lado, é nesta altura que se abrem oportunidades de OPA (Ofertas Públicas de Aquisição) a preços acima da cotação, mas abaixo do seu PBV.

     No extremo oposto, temos os PBV muito elevados, característicos em empresas com elevado potencial de crescimento. Se as expectativas forem goradas, a cotação cai e influencia o PBV.

 

EBITDA – Earnings Before Interests, Taxes, Depreciations and Amortization

 

     Também designado por lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações (LAJIDA). No fundo é o lucro operacional, aquele que resulta, única e exclusivamente da actividade e não da optimização fiscal e financeira, por exemplo. É importante a sua análise, uma vez que é com este indicador que se conclui se a actividade operacional da empresa, ou seja, o seu core business, está a crescer ou a decrescer. O seu cálculo é feito da seguinte forma:

     RO (Resultado Operacional) + AR + Variação das provisões

 

Dividend Yield

 

     Este é um indicador fundamental para quem investe e não é mais do que a taxa de rendimento do investimento efectuado.

 

     Por fim, gostaria de me debruçar sobre algumas limitações da utilização dos rácios para se toamrem decisões de investimento em Bolsa. Para além daquelas que já foram referidas no início, temos:

          - Os rácios, apenas, tratam dados quantitativos;

          - Os rácios podem ser afectados por decisões de curto prazo;

          - As práticas contabilísticas e fiscais dos diversos países podem implicar que os rácios não sejam compráveis, característica, intrínseca a estes indicadores;

 

—————

Voltar